Cabelo, Cabelo meu

Assinatura Camila verm

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Ruth Sepaul Foto: DahPassos

Em primeiro lugar, esse post é sobre cabelo. Especificamente mulheres que têm cabelos crespos e cacheados. Mas, para começar, eu vou falar do filme “De repente 30”. Todas e todos devem conhecer aquela clássica comédia romântica de 2004 que conta a história de Jenna Rink (Jennifer Garner), uma garota de 13 anos que, em meio a sua festa de aniversário frustrada, deseja ter 30 anos de idade, a “idade do sucesso”? É um filme sobre a busca pelo sucesso profissional e amoroso, certo? Bom, era o que eu pensava até revê-lo recentemente e começar a reparar em diversos outros problemas que ele aponta.

Como, por exemplo, a crítica velada às mulheres de sucesso: ao acordar e perceber que tem 30 anos de idade, Jenna vê que conseguiu realizar tudo que sonhou ao longo da sua adolescência, mas logo também descobre que todas essas coisas não se devem apenas à sua competência ou mérito, mas às suas artimanhas e várias condutas questionáveis. Decepcionada consigo mesma e, tentando mudar isso, a história nos mostra uma mulher fragilizada que volta ao passado (quando tinha 13 anos) e decide fazer tudo diferente, começando por colocar como prioridade em sua vida não mais o desejo do sucesso profissional, mas o relacionamento com Matt, seu par romântico no filme, trazendo o velho chavão sexista de que mulheres devem priorizar os relacionamentos já que trabalhar muito as tornam frias e megeras.

Mas, de volta aos cabelos, uma cena específica chama bastante atenção. Em uma das festas promocionais da revista da qual Jenna é editora chefe, ela encontra a editora chefe da revista rival, e ambas trocam farpas. Um dos insultos que Jenna faz à rival é justamente em relação ao seu cabelo:

“Quer saber? Você é grossa, má, desleixada e tem cabelo crespo. Eu não gosto mesmo de você”

Aquela frase, na verdade, é uma exclamação do que o opressor padrão de beleza feminino (bastante presente no filme) tem afirmado, ao longo do tempo, a respeito do que é ter um cabelo bonito, um cabelo bom. Não é à toa que, no Brasil, 63% das mulheres querem ter o cabelo liso, de acordo com pesquisa realizada pela empresa de cosméticos francesa L’Oréal. Isto enquanto 70% da população tem cabelo cacheado, segundo o Instituto Beleza Natural e da Universidade Nacional de Brasília.

Tamanha busca por alisamento aponta vários problemas provocados pelo estereótipo do cabelo bom. O primeiro deles é a não aceitação de si e o não reconhecimento da própria beleza. Muitas garotas, desde cedo, aprendem que seus cabelos crespos ou cacheados não são bonitos, que são ruins, que não servem para ficar soltos. É um aprendizado nocivo, mas constante, frequentemente incentivado pela mídia.

O que dizer, por exemplo, do filme O Diário da Princesa, estrelado por Anne Hathaway? Nele, ao se descobrir princesa, a protagonista sofre uma série de transformações no visual, sendo uma delas, a mais marcante, o alisamento do cabelo, antes volumoso e crespo. Assim, fica marcada a passagem da personagem de “plebeia” à princesa. Detalhe que também indica outro preconceito: a ligação direta do cabelo crespo/cacheado à mediocridade ou pobreza, um preconceito que trás marcas históricas fincadas também numa cultura racista, que diz que ter características afro descendente ou ser negro não condiz com boa posição social.

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Cena do filme “O Diário da Princesa”

O que não falta são estímulos para que as garotas crespas ou cacheadas acreditem que ficariam mais bonitas se alisassem o cabelo, prática que começa muito cedo (no Brasil, o alisamento é permitido a partir dos 12 anos de idade), e a decisão geralmente é baseada na insegurança, incerteza e baixa-autoestima. É o caso de Laura Quaresma, estudante de publicidade da UFPA. Laura começou a alisar o cabelo aos 12 anos de idade e o incentivo veio da própria família:

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Contudo, Laura conta também que nunca se sentiu tão à vontade assim com o alisamento, e que a baixa autoestima esteve presente mesmo depois dos processos químicos:

“Eu via as meninas de cabelo cacheado e pensava que eu não tinha sido tão corajosa quanto elas por não ter assumido os cachos. Eu me sentia falsificada desde o primeiro momento que alisei. Aquilo era como uma máscara”

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Laura Quaresmas e seus cachos / Foto: Gabriel Mota

Foi aproximadamente em 2010 que Laura decidiu não mais fazer definitiva nos cabelos, mas ainda continuava a tratá-los com diversos tipos de escova, que prometiam apenas “abrir os cachos”, mas na verdade o resultado ainda era um cabelo liso e frágil. Depois de desistir dos procedimentos térmicos, Laura conta como se sente em relação ao seu cabelo atualmente, curto e cacheado:

“Hoje o cabelo cacheado me representa muito mais, reflete minha personalidade”.

Felizmente, cada vez mais mulheres têm incentivado e sido incentivadas a manter seus cabelos naturais, a gostarem dos cachos e dos fios crespos. Esse movimento é percebido principalmente por meio das redes sociais, na internet. Ruth Sepaul, estudante de publicidade da UFPA, é um exemplo dessa autoafirmação e resistência. Indo à contramão do antiquado estereótipo de que cabelo bom é cabelo liso, Ruth nunca alisou o cabelo:

“Eu gosto do meu cabelo, eu sempre gostei. Meu problema era a falta de representatividade. Sempre o usei do mesmo jeito, sem fazer nenhum processo químico”.

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Ruth nunca aplicou química no seu cabelo / Foto: Nós Vamos Assim

Apesar da determinação, Ruth afirma que também passou por pressões para mudar o cabelo:

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Ruth também se posiciona a respeito do movimento cada vez mais popular de mulheres que deixam de realizar procedimentos químicos e a respeito da decisão daquelas que preferem manter os cabelos alisados:

“Eu acho lindo ver as manas usando o cabelo do jeitinho que é. Sei da importância disso na vida dessas meninas, de afirmar sua identidade, mas acredito que cada uma tem seu tempo. Não concordo com o posicionamento que colocam o cabelo afro como uma imposição para aquelas que ainda preferem manter os processos químicos”.

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